terça-feira, 22 de outubro de 2013

O Projeto Político Pedagógico da escola: algumas considerações (Parte I)

O que é Projeto Político Pedagógico da escola? Alguma vez você já se deparou com essa pergunta? Como você a responderia? Aprendeu na Faculdade de Pedagogia? Você conhece o Projeto Político Pedagógico de sua escola? Participou de sua elaboração?

O Projeto Político Pedagógico da escola, mais conhecido como PPP, pode ser denominado de Projeto Pedagógico, Projeto da escola, entre outras coisas. Qualquer que seja a denominação, está implícita na ideia de projeto a ação de planejar, buscar um rumo, uma direção de forma intencional.

A dimensão política traduz pensamento e ação: exprime uma visão de mundo, de sociedade, de educação, de profissional e de aluno/a que se deseja. Tomar decisões, fazer escolhas e executar ações são atos políticos. Dependendo da concepção de Educação e Sociedade que se tem, é que se tomam decisões na escola. Toda decisão tem por trás uma concepção, não existe esse “papo” de que escola é neutra. Portanto, um Projeto Pedagógico é sempre Político, mesmo que a palavra não apareça.

Fala-se em dimensão pedagógica porque nela está a possibilidade de tornar real a intenção da escola, ação para cumprimento de propósitos que passam pela formação do ser humano participativo, compromissado, crítico e criativo. Que ser humano queremos formar é a primeira questão a se fazer.

A elaboração de um Projeto Político Pedagógico envolve a busca de autoconhecimento e de conhecimento da realidade e seu contexto. Planejá-lo requer encontrar no coletivo da escola respostas a uma série de questionamentos: Para quê estamos aqui? O quê queremos alcançar? O que desejamos para nossos/as alunos/as? Quais ações são necessárias para alcançar aquilo que queremos? Quando? Como? Com o quê? Por quê? Com quem?

A construção do Projeto político pedagógico é a forma objetiva da escola dar sentido ao seu saber fazer enquanto instituição escolar: é a realização concreta de seus sonhos e como já dizia Moacir Gadotti, “não devemos renunciar ao nosso sonho de grande mudança, não devemos jogar no lixo nossa utopia revolucionária”.

E falando em Moacir Gadotti, em seu texto “O projeto político pedagógico da escola na perspectiva de uma educação para a cidadania”, o autor coloca uma série de questões importantes para pensarmos a elaboração do projeto da escola. Entre elas a de que a construção do Projeto da escola representa um desafio para todos/as os/as educadores/as. Isto porque não se constrói um projeto sozinho, projeto da escola deve ser coletivo, envolve conhecimento da comunidade, do contexto, dos/das alunos/as, da sociedade contemporânea, clareza da função da escola no mundo contemporâneo, e um grupo comprometido. Uma gestão escolar comprometida com os/as filhos/as de trabalhadores/as que estão na escola, comprometida com a construção de um mundo melhor.

Tenho conversado com muitos/as professores/as em diversas formações que realizo e fico muito preocupada quando ouço da maioria deles/as que não conhecem o Projeto da escola, que sabem que é um papel quase “sacralizado” guardado na direção ou coordenação, que não participaram de sua elaboração... isso também revela uma concepção de Educação. Bem autoritária, por sinal. Projeto Pedagógico da escola não é aquela pasta organizada com tabelas de funcionários e histórico da escola...estou falando de coisa bem diferente. Claro que sabemos que há a parte burocrática, as escolas devem entregar um “Plano Escolar”, o que deve constar nele varia de secretaria de educação pra secretaria de educação, mas ele não é um Projeto Político Pedagógico.

Projeto Político Pedagógico tem vida. Acontece, é flexível de acordo com as necessidades, muda às vezes. Outras não. Outras vezes muda algumas coisas apenas. Mas ele representa uma reflexão sobre a prática com olhos no futuro. Visando o sucesso dos/das alunos/as e da comunidade como um todo. Precisa de gente que goste de Educação. Como diria Hanna Arendt, de gente que ame o mundo de tal forma que se responsabilize por ele, o trazendo para as novas gerações, que, ao deparar-se com ele, também traz o novo, cria.

Outro fator relevante na construção de um PPP é o fato de que, segundo, Gadotti “cada escola é resultado de um processo de desenvolvimento de suas próprias contradições”, ou seja, não há dois Projetos iguais, não há receitas, cada escola elabora seu projeto e o coloca em prática. A pluralidade de projetos pedagógicos faz parte da história da educação da nossa época. Por isso não deve existir um padrão único que oriente a escolha dos projetos de nossas escolas. O projeto da escola depende sobretudo da ousadia dos seus agentes, da ousadia de cada escola em assumir-se como tal, partindo da cara que tem, com o seu cotidiano e seu tempo-espaço, assumindo erros e os entendendo como parte do processo, construindo junto, refletindo sobre o currículo, as ações, as aulas...

Para finalizar essa primeira parte de nossa discussão sobre PPP, peço à vocês que respondam às perguntas: a escola onde trabalho tem um Projeto Político pedagógico? Eu o conheço? As minhas ações como educador/a refletem o que se quer alcançar a partir dele? Eu participei de sua elaboração? Conto com as respostas de vocês aqui nos comentários. Volto em breve para conversar com vocês a respeito e contar uma experiência muito rica que tivemos na elaboração de um PPP em uma escola municipal de São Paulo.

Até breve!
Edna Telles















sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia das mulheres

Não, não há nada mais que se possa fazer.
Aquela pequena menina já foi convencida pela sua criação
Que podia menos
Que sentia mais
Que brincava menos
Trabalhava mais
Brincava menos que as meninas brancas e ricas
Brincava menos que os meninos pobres como ela
Aprendeu devagarzinho ao ir à escola
Que sua fila era separada
E que ao ouvir dos colegas ao ver um menino em sua fila sem querer “credo, mulherzinha”, aprendeu bem que é vergonhoso ser menina, ser mulher.
Lá na casa dela, ao ver a mãe trabalhando muito e chegando em casa e continuando a trabalhar muito, fazendo comida, limpando a casa e lavando a roupa, verificando se todas as crianças comeram, vendo se havia lição de casa, acabada pelo cansaço enquanto seu pai descansava no sofá e de vez em quando gritava algo grosseiro, ela aprendeu a subserviência...
Quando seus professores não a convidavam a participar do grupo que desenvolvia projetos de tecnologia e a mexer com o equipamento da rádio e a ela pediam que escrevessem o programa, ela aprendeu que teria que ir para a área de humanas...
Quando seu namorado falou pra ela transar sem camisinha por amor, ela aprendeu desde mesmo antes disso, que deve ficar feliz em ter alguém que goste dela, ela assim tão sem futuro...
Quando engravidou aos 16 anos e foi deixada sozinha, pois afinal de contas, quem mandou não se cuidar? Ela aprendeu que não tem direito a decidir se quer ou não ter esse filho e que mulher pobre tem sim que querer, pois as ricas pagam aborto seguro...
Quando ela descobriu o amor com outra mulher, aprendeu que sua luta seria grande, pois para a sociedade em geral só há um jeito "certo" e "aceitável" de ter prazer: com o homem...
Quando ela estudou muito e foi procurar emprego, ela aprendeu que mulher que tem filho fica pra trás porque as empresas preferem as outras, que não faltarão por qualquer coisa, afinal de contas, ela fez o filho sozinha mesmo, não é?
Quando ela conseguiu um altíssimo cargo numa grande empresa, ela aprendeu que todo o seu trabalho, embora igual a de seus colegas homens, valia muito menos porque ela era mulher... e embora ganhasse muito dinheiro, era julgada porque não tinha tempo pra dedicação à família, aos filhos...afinal de contas, ela fez o filho sozinha mesmo, não é?
Quando ela entendeu todo o processo de exclusão sistemática e construída, ela mudou sua vida, deixou seus filhos brincarem com bonecas para aprender a cuidar de alguém e ajudar suas futuras companheiras. Ou companheiros? Começou a dividir as tarefas com todas as pessoas dentro de casa, independente do sexo sem medo de ofender ninguém, sem medo de se perder, sem medo de ficar sozinha.
Quando ficou sozinha por ter a rédea de sua vida, descobriu que existem outros homens (e porque não, outras mulheres?), que são legais e que a entendem e a vêem como gente.
E, feliz da vida, pensou que então, finalmente, poderia deixar que alguém cuidasse dela também. Mas desconfia que apesar das conquistas, ainda há muito pelo que lutar. Mas aprendeu também a não desistir, e hoje segue resisitindo.
Há sim, ainda há algo que se possa fazer.
E você, vai ficar aí parado?

Edna Telles

domingo, 2 de dezembro de 2012

III Web Currículo: Educação e Mobilidade (PUC/SP)

Nos dias 12, 13 e 14 de novembro aconteceu o "III Web Currículo: Educação e Mobilidade", na PUC/SP. Foram três dias de muita interação, troca de experiências, relatos de práticas, comunicações de pesquisas e palestras nas várias Mesas redondas sobre o uso de Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) na escola. Difícil foi escolher de quais palestras participar.

Compartilho aqui as minhas anotações sobre a Palestra Inaugural, que aconteceu no dia 12 de novembro, com Juan Carlos Tedesco (considerem que são apenas anotações, portanto pode haver quebra de pensamento....mesmo assim, acho que vale a pena conferir!).


Título da Palestra inaugural: Educação, Tecnologia e Justiça Social na Sociedade do Conhecimento.
Palestrante: Prof. Dr. Juan Carlos Tedesco, Director de la sede regional del Instituto Internacional de Planificación de la Educación en Buenos Aires.
Interlocutor: Alípio Dias Casali, PUC/SP
O Palestrante Prof. Dr. Juan Carlos Tedesco inicia dizendo que a história da educação nos últimos anos é a história das reformas. Para que queremos mudar a Educação? Estamos diante de uma opção ético-política. Os sentidos da Educação no século XXI precisam estar pautados na construção de uma sociedade mais justa. É preciso colocar a discussão do uso das tecnologias nesse contexto.
Disse que há, de forma geral, uma sensação de ceticismo nas propostas de mudanças. Foram alcançados níveis de avanço interessantes em alguns aspectos, mas a insatisfação vem em relação aos níveis sociais e origem das famílias, há um determinismo social que a escola não está conseguindo mudar. Hoje temos problemas também em outras classes sociais, no sentido de desenvolver competências. Mudar a Educação é algo muito difícil, é bom aceitarmos isso para não ficarmos iludidos.
O palestrante diz que na Argentina, as mudanças curriculares (reformas) chegam apenas até a porta da sala de aula. Mudaram os currículos nos últimos 20 anos, mas se pegarmos os cadernos de sala de aula, veremos as mesmas coisas. Ou seja, mudar a Educação não é algo simples.
Descentralizar ou não? Dar autonomia ou não? Os procedimentos dependem do âmbito político. A ideia de passado está associada ao que é obsoleto. O futuro está associado à incerteza, crise ambiental, entre outras coisas. Então, uma cultura que rompe com o passado e onde o futuro é incerto, tende a concentrar-se no presente. Cultura à curto prazo. Os educadores ficam em situação de crise, mal estar docente, crise nas escolas.
Ainda há dois extremos: o fundamentalismo e o individualismo (ideia postulada pelo mercado). Diante desses dois extremos, é preciso construir uma proposta que prime por uma sociedade mais justa, viver em comunidade, construir um projeto coletivo.
Hoje, precisamos de uma educação que permita níveis de solidariedade exigidos pela sociedade. Cita Fernando Pessoa “se o coração pensasse, ele pararia”.
O palestrante diz que o excluído não é necessário do ponto de vista produtivo. Nesse sentido, construir sociedades mais justas é o grande desafio do futuro. A Educação é uma condição necessária para a construção da justiça social. Cita alguns estudos da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), criado pelas Nações Unidas.
Diz que hoje faz-se necessária a alfabetização científica e tecnológica. E salienta que é importante diferenciar o acesso universal ao domínio das novas tecnologias e as questões pedagógicas no uso dessas tecnologias. As questões colocadas são diferentes.
Quem não está inserido no mundo digital, fica fora das informações mais importantes que estão circulando. Há hoje programas de inclusão digital importantes na América Latina, um exemplo é o projeto “Um Computador por Aluno” (UCA).
Diz que toda escola deveria ter uma disciplina chamada Alfabetização digital.
O que significa inclusão digital em termos de alfabetização? É um assunto complexo onde temos que assumir uma postura científica. É preciso que trabalho em equipe, interação, cooperação, façam parte do projeto de uso das tecnologias, à serviço dos Projetos Pedagógicos. É fundamental discutir o Projeto Político pedagógico no qual são utilizadas as TIC´s.
Segue a palestra citando algumas pesquisas que considera importantes na área da neurociência. Diz que as crianças tem tempo de concentração curto, surfam, artificialmente. Há polêmicas, pois há pesquisas que apontam que jogos desenvolvem o pensamento complexo. É preciso estar “a par” dessas pesquisas e suas polêmicas, para que se possa pensar a respeito de decisões importantes politicamente falando.
Citou Nicolas Negroponte e a sua ong OLPC (one laptop per child). Disse que é necessário pensar na comercialização, mas a partir das necessidades sociais. Quais os problemas educacionais que esses laptops estão resolvendo?
É a tecnologia que tem que se adaptar aos problemas da escola e não o contrário.
Nesse momento, Juan Carlos Tedesco finaliza sua fala e em seguida o professor Alípio Casali faz a sua fala destacando iria chamar a atenção para alguns pontos da fala de Tedesco:
   Tedesco inicia falando de ceticismo e termina falando sobre o olhar para o futuro.
* O determinismo social ainda influencia os resultados.
* É preciso manejo adequado para o uso das tecnologias na Educação (investimentos)
*   Formação de sujeitos da ação social: com ética e visando uma sociedade mais justa, menos piramidal e mais plana, onde a Educação torna-se indispensável e as tecnologias entrem como dispositivos pedagógicos adequados para esse projeto.
* É preciso avançar nas pesquisas educacionais, colocando as TIC´s à disposição do Projeot Pedagógico e não o contrário.
Tedesco fala:
É preciso articular cultura digital com cultura científica. Temos muito desenvolvimento tecnológico e pouca cultura científica. É preciso um olhar interdisciplinar para o uso dessas tecnologias, um olhar sistêmico e complexo.
E vocês, o que acham?

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Distribuição de conteúdos e escrita colaborativa (Alejandro Piscitelli)

Contexto: o que apresento abaixo é um resumo do texto "distribuição de conteúdos e escrita colaborativa", escrito por Alejandro Piscitelli. O resumo foi preparado para a disciplina "Tecnologias digitais em espaços educativos", ministrada pela professora Lucilene Cury, que curso na ECA (Escola de Cominicações e Arte) da USP.


Alejandro Gustavo Piscitelli formou-se em Filosofia na Universidade de Buenos Aires e obteve mestrado em Ciência de Sistemas na Universidade de Louisville (EUA) e na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais  (FLACSO). É consultor organizacional em Internet e e-commerce. Atua como professor de oficina de processamento de Dados, Telemática e Informática, pela UBA. Além disso, ministra cursos de pós-graduação na UBA, FLACSO, Universidad de San Andrés, e varias universidades Argentinas e Latino-americanas e espanholas. Ocupa importante posição como consultor em programas e organizações em sua especialidade. É ainda, co-editor da revista eletrônica Headline News Interlink. (resumo retirado de http://alejandro-piscitelli.webnode.com/  acesso em 02/11/2012)

Distribuição de conteúdos e escrita colaborativa

No livro “Internet, la imprenta del siglo XXI”, de Alejandro Piscitelli, há um capítulo destinado à discussão da distribuição de conteúdos e escrita colaborativa. Neste capítulo, o autor discute a produção e distribuição de conteúdos na Internet, dando destaque aos blogs e as wikis, traz um histórico sobre o desenvolvimento tecnológico desde o telégrafo, passando pela imprensa, o rádio, a  TV e mais recentemente, a Internet. Apresenta uma visão crítica sobre a ideia de armazenamento ilimitado e interação com milhões de pessoas, tendo como pano de fundo a questão da desigualdade econômica posta pelo capitalismo. Reconhece que há democratização e aumento da produção de conteúdos na web, mas ressalta a perda de qualidade do conteúdo produzido como conseqüência do amadorismo massivo das publicações. Ainda assim, destaca a importância da gratuidade da produção na rede, enfatizando o potencial da produção democrática e colaborativa.
Piscitelli chama a atenção para a necessidade de análise das relações existentes entre os novos suportes e linguagens que temos hoje e a história de distribuição dos conteúdos que se vai gerando no processo dessas transformações. Para isso, faz uma rápida imersão pela história, discorrendo sobre as dificuldades de produção e distribuição dos manuscritos, pelo seu altíssimo custo, em seguida destaca a importância do surgimento da imprensa para a Europa e para todo o planeta, mas ressalta ainda o alto custo e por isso, era tarefa para grandes empresas e mais tarde o surgimento do rádio e da TV como novos mecanismos de irradiação de informações, porém, pelo alto custo em obter equipamentos e licenças para manter a distribuição, era ainda tarefa para poucos ricos e poderosos. Com a chegada da Internet, conquista-se o meio de geração e distribuição de conteúdos mais econômico e acessível da história.
O autor destaca que os preços das máquinas caíram significativamente de modo simultâneo à criação da Internet. A criação da Internet é considerada como a maior revolução da história da comunicação. Segundo Piscitelli, “agora qualquer pessoa podia publicar qualquer coisa e qualquer outra podia lê-la, onde o horizonte da publicação parecia abrir-se para o infinito e as barreiras que impediam uma circulação massiva das mensagens uma distribuição altamente global dos conteúdos parecia haver desaparecido como por arte de magia” (pág. 83). Porém, de forma crítica, o autor relativiza essa democratização, pois não é verdade que todos tem acesso às publicações de todos. Não se pode esquecer que a possibilidade de publicação “um para muitos” depende de fatores totalmente externos como, por exemplo, a largura da banda. Da mesma maneira, há um limite nas contas de distribuição, e traz como exemplo situações em que o envio por e-mail de arquivos como apresentações em PowerPoint  não são possíveis de se concretizar quando estes ultrapassam o tamanho em bytes especificado pelo serviço de correio eletrônico. O autor diz que é claro que existem espaços de armazenamento ilimitados, mas são cada vez mais caros, ou seja, há poucas opções intermediárias. Nesse cenário, é impensável imaginar que um usuário comum, de recursos médios, tenha a possibilidade de ser visitado por centenas de milhares de pessoas diariamente. Reconhecer isso é dizer que não há tanta liberdade como se pode parecer.
Apesar da questão econômica, Piscitelli destaca que existem outras variações de produção coletiva na rede que merecem consideração, como os blogs e as wikis. A wiki (que significa rápido), é uma aplicação de informática colaborativa, que permite que documentos web sejam criados coletivamente sem que exista uma instância hierárquica de aprovação antes que seja publicado e isso de forma simples e fácil, dá como exemplo a wikipédia. Essa mesma facilidade de uso ocorre com os blogs (ou weblogs), onde as pessoas são conteúdistas, editores, assistentes técnicos, designers e etc.
O que ocorre, por outro lado, com os blogs e wikis é a diminuição do valor econômico das publicações e a perda de qualidade do conteúdo, que decorre do amadorismo massivo das publicações.  “Sem dúvida, os artigos não são os mesmos que podemos encontrar na Enciclopédia Britânica, porém, não custam um centavo baixá-los na rede e o importante não está somente no valor dos seus artigos, mas na magia que há em que a wiki-comunopédia funcione, some talentos e qualidade, e sobretudo cresça, se difunda e seja ambiciosa e efetiva” (pág.88).

Nas palavras de Piscitelli:
“Num mundo hierárquico, onde quase tudo está organizado não tanto pelos que sabem, mas pelos que podem e querem; onde a brecha entre o saber e o fazer multiplica-se diariamente, gerando dificuldades e frustrações a granel, o exemplo das wikis como a wikipédia, mostra que há outra forma de fazer as coisas e que, por sorte, podemos participar dessas construções complementares” (pág. 88-89)

Para finalizar seu texto, Piscitelli diz:
 “A conclusão previsível de tudo isso é que o maior erro que se pode haver é imaginar cobrar pelo que deve ser gratuito, ainda que curiosamente essa seja a base da mercantilização e o motor oculto do capitalismo.  Blogar é hoje um hobby e um presente divino por obra e graça da santa tecnologia, não são o paraíso dos milhões, mas sim uma fonte inesgotável de mesas virtuais e pequenos grupos que seriam impossíveis de fomentar, manter ou gerar no mundo real. Nesse sentido, a massificação que a Internet gera é algo que tem um valor incalculável. Porque o mais interessante e reconfortante dos blogs é que geram conversas que são importante para nós, conversas em que ser parte do jogo é uma recompensa que nenhuma moeda poderia substituir jamais” (pág. 91)

Assim, Piscitelli nos faz pensar sobre as complexas relações existentes entre o surgimento da Internet e as inúmeras possibilidades que ela nos traz em sua versão 2.0, não nos deixando esquecer da relevância em pensar no seu contexto de surgimento, a globalização e o capitalismo e as implicações deste contexto nesse novo universo da produção e distribuição de conteúdos. Sendo assim, ainda estamos num processo de construção de um “mundo sem fronteiras”, onde a questão central deve ser a busca pelo acesso democrático e irrestrito a tudo o que essas ferramentas digitais e colaborativas põem nos oferecer.

Bibliografia
PISCITELLI, A. Distribuición de contenidos y escritura colaborativa. In: Internet, la imprenta del siglo XXI. Barcelona: Editorial Gedsa, 2005.

Para saber mais sobre Alejandro Piscitelli, acessem o blog colaborativo que a turma da disciplina da ECA citada acima produziu:  http://alejandro-piscitelli.webnode.com/

 

domingo, 21 de outubro de 2012

Ada, ada, ada, vem aí a Ernanada!!!

A frase acima “vem aí a Ernadada” foi lida por todos os/as alunos/as da EMEF Ernani Silva Bruno (escola onde sou coordenadora pedagógica), em um banner afixado no pátio da escola dias antes da semana da criança. Para quem não sabe, a “Ernanada” é o nome carinhoso (que vem de Ernani, nome da escola) para uma “competição saudável” que acontece na escola durante a semana da criança. Mas por trás da competição, há vários outros objetivos, todos relacionados ao Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola.

O primeiro deles tem a ver com a convivência, protagonismo e trabalho cooperativo entre professores e alunos. Durante uma semana, crianças de 06 a 10 anos (primeiro ao quarto ano do ciclo I) e adolescentes de 11 a 14 anos (quinto ao oitavo ano do ciclo II) trabalham juntas/os em suas equipes. Há toda uma preparação para que isso ocorra. Antes, é necessário distribuir as crianças e adolescentes nas 06 equipes (6 no ciclo I e 6 no ciclo II). Por exemplo, se a professora tem uma classe de primeira série, ela precisa dividir o número de crianças em 6 grupos diferentes. Com todas e todos fazendo isso, têm-se grupos multi-idades. Quando todos os grupos estão formados, todos os dias eles se reúnem para desenvolver diversas atividades relacionadas às competições.

A Ernanada tem um tema específico. Esse ano o tema foi o “centenário de Luiz Gonzaga e cultura nordestina”. Cada equipe tem uma cor e um tema. A cor é sorteada e o tema também. Por exemplo, no ciclo I tínhamos as equipes verde, vermelha, amarela, azul, laranja e marrom. Cada equipe desenvolveu um tema específico dentro do tema geral: comida típica nordestina, cordel, causos, festas populares, música, entre outros. Então funciona assim: cada equipe precisa pesquisar sobre o assunto sorteado e preparar uma apresentação do tema para todas as outras equipes. Além disso, cada equipe precisa criar um grito de guerra e uma bandeira.

Além dessas atividades, as equipes precisam se preparar para as outras provas:
  • Quem sabe, sabe (aonde os alunos irão responder à questões relacionadas ao tema do evento, no caso, o centenário de Luíz Gonzaga)
  • Quem sabe, canta (nós colocamos uma música nordestina e, quando a música parar, a equipe tem que continuar cantando)
  • Cante você (cada equipe devia preparar a apresentação de um repente)
  • Caça-tranqueira (cada equipe precisa unir durante a semana objetos que tem a ver com o tema, pois serão pedidos no dia da competição. Ex. Chapéu de nordestino, fuxico, etc.)
  • Dançar forró (cada equipe escolhe um casal para dançar forró e representá-la)
  • Dançar frevo (cada equipe escolhe um casal para dançar frevo e representá-la)
  • Vestir-se tipicamente para desfilar em um dos dias (esse dia é avisado com antecedência)

No ano anterior, o tema foi “escritores/as”: cada equipe estudava a biografia e obra de um/uma escritor/a e tinha que apresentar e as provas variavam bastante: tivemos concurso da melhor foto feita com o laptop educacional do projeto UCA (Um computador por aluno), entre outras. As provas também podem variar entre ciclo I e ciclo II, por exemplo: os dois ciclos tinham a prova “quem sabe, sabe...”, mas as perguntas eram diferentes.

As competições acontecem durante três dias seguidos e, no último dia, há festa de encerramento com música típica, cachorro quente e bolo para o dia das crianças. É quase que uma “missão impossível” descrever o envolvimento dos professores e dos alunos. As atividades acontecem na quadra coberta da escola, e parece um arco-íris, já que as equipes também pontuam pelo número de pessoas vestidas pela cor da equipe. Pom-pons coloridos também são bem-vindos. Há uma equipe julgadora composta por funcionários da escola e um “animador/a” que geralmente é o diretor e as coordenadoras pedagógicas.

As equipes vencedoras de 2012, uma do ciclo I e outra do ciclo II ganharam como prêmio um dia em uma chácara, com piscina, almoço e diversas atividades recreativas.

A semana que antecede à Ernanada, é sempre muito corrida e exige um trabalho coletivo imenso: professores e funcionários se ajudam para que dê tudo certo. Para as crianças e jovens é um aprendizado enorme: eles pesquisam, vão atrás de materiais diversos, precisam decidir coletivamente como apresentarão o seu tema, precisam criar o grito de guerra, criar a bandeira, estudar, preparar a apresentação, e isso tudo em grupo: ou seja, precisam dividir as tarefas, ajudarem-se, delegar atividades, considerar o que cada um tem mais facilidade, lidar com a diferença de idade...olha quanto aprendizado! E as professoras e os professores precisam trabalhar em grupos também...descobrem novas parcerias e se envolvem tanto...que as vezes é preciso acalmar os ânimos...rsrs

Mas no fim, todos/as ganham e as crianças e adolescentes se divertem a aprendem muito! Afinal, quem foi que disse eles/as só aprendem dentro da sala de aula, com a mesma idade, todos fazendo a mesma coisa ao mesmo tempo?

Agora todos/as sabem quem foi Luiz Gonzaga, o que ele representa, onde nasceu, entre outras coisas...cultura na escola!

E você, o que achou?

Por Edna Telles

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Escola para a diversidade: faz sentido para você?



A escola face ao contemporâneo é a escola da diversidade. Pelo menos é isso que qualquer discurso educacional que se pretenda sério explicita. Ouve-se falar em diversidade na escola em discussões sobre projetos políticos pedagógicos, nas orientações gerais das expectativas de aprendizagem, nas partes teóricas acopladas aos livros didáticos (que vamos e venhamos, quase ninguém as lê), nos congressos educacionais, nas reuniões em diretorias de ensino, no senso comum em geral. Mas, o que é a diversidade? O que é trabalhar com a diversidade? Sabemos lidar com a diversidade?
Em primeiro lugar, a “diversidade” são os outros. São aqueles e aquelas que não se encaixam nos modelos considerados “normais”. Geralmente esses modelos são construídos pautados em relações de poder, numa visão elitista e androcêntrica do mundo (indivíduo do sexo masculino como centro de todas as coisas). A diversidade são os/as negros/as, os índios/as, os/as pobres, as mulheres, os/as homossexuais, os/as assexuais, os/as idosos/as, e pasmem! Também muitas vezes, as crianças. E lidar com a diversidade é lidar, em primeiro lugar, com nossos próprios preconceitos.
Falar de diversidade na escola pública é falar de um compromisso com o público, com o diverso e, portanto, não com valores próprios, mas com valores comuns. A escola pública é para todas e todos. É por meio da educação escolar que deve-se construir uma cultura cidadã, onde todos/as se respeitem e tenham as mesmas oportunidades e condições de trabalho e de aprendizagem. Não é tarefa fácil, ainda mais nos dias de hoje que, para além das questões da diversidade, ainda temos que pensar nas questões do acesso às tecnologias digitais e ao mundo que elas são acesso.
Os desafios da profissão docente hoje são imensos. Um/uma professor/a precisa aprender a lidar com a tecnologia e, ao mesmo tempo, superar seus próprios preconceitos e trabalhar para a diversidade.
Uma auto-avaliação deve ser feita por todas e todos que estão nas salas de aula: o que é necessário ensinar nos dias de hoje para que meus alunos e minhas alunas tenham acesso ao mundo em que vivem de forma atuante e crítica? Estou ensinando o que é necessário? Estou ensinando da melhor forma? Será que todos/as os/as alunos/as aprendem da mesma forma, o mesmo conteúdo e ao mesmo tempo? Aqui já entramos nas questões que envolvem além de todas as diversidades explicitadas anteriormente, a diversidade de ritmos de aprendizagem.
Qual é o sentido da escola para suas alunas e seus alunos? Vocês já se perguntaram isso? Já perguntaram para eles/elas? E qual é o sentido da escola hoje? O que você faz, tem sentido para você? Porque estou perguntando isso agora? Porque para que desenvolvamos um olhar “para o/a outro/a”, precisamos lançar também um olhar para nós mesmos. Pensar sobre se faz sentido para nós o que fazemos, nos ajuda a buscar caminhos. Tem gente que vai para a escola como se fosse para um velório. Já sente que não há mais o que fazer. Então, que sentido tem isso? Que interesse pelo saber – uma pessoa que vai para a escola assim – consegue despertar em alguém?
Afora essa problemática subjetiva – gostem ou não – ela existe, os/as alunos/as estão aí: alfabetizados/as, não alfabetizados/as, negros/as, gays, pobres, com necessidades educativas especiais, superdotados, enfim...todos/as sabem: todos/as estão na escola.
Essa escola precisa fazer sentido. Para os/as alunos/as e para os/as professores/as. Como construir esse sentido? Digo com toda a certeza que esse sentido surge na construção de um Projeto Comum, um projeto que seja político e pedagógico. Um projeto que olhe lá na frente, mas que aconteça agora, com a humanidade presente, na construção do humano no sentido mais simples de sua concepção: a busca do ser mais. Um projeto que dê a todas e todos acesso à bens culturais, ao conhecimento construído pela humanidade e que vá além, que proporcione a construção de conhecimento.
Uma pessoa – pra lecionar – precisa decidir se ama o mundo o suficiente para querer trabalhar em algo que o tenha como meta. E precisa decidir se quer – realmente – um mundo mais justo, igualitário e diverso. Do contrário, sugiro que procure outro trabalho. Lidar com máquinas talvez seja melhor. A Educação Pública precisa de pessoas com a mente aberta para investir no humano. Pense nisso, reflita e decida. Se decidir por continuar, amanhã com certeza seu olhar será outro. E sua aula será outra...

Edna Telles

Fonte da imagem: http://flor-essencia.blogspot.com.br/2010/09/video-aula-1-as-revolucoes-educacionais.html (acesso em 01/10/2012)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Terezinha Azerêdo Rios no Seminário de Educadores/as do Jaraguá

No dia 14 de setembro tivemos na região das escolas do Jaraguá, o Seminário de Educação, cujo tema central foi “MULTIPLAS LINGUAGENS COMO POTENCIALIZADORAS DO CURRICULO: A NECESSIDADE DE (RE)CRIAR A AÇÃO DOCENTE, OS TEMPOS E ESPAÇOS EDUCATIVOS”. O seminário contou com a palestra de Terezinha Azeredo Rios pela manhã e de Ana Maria Saul pela tarde. Nos dois períodos também ocorreram oficinas apresentadas pelas pessoas das escolas da região (entre CEIs, EMEIs e EMEFs) e colaboradores/as. Eu ministrei uma oficina junto com a POIE da escola onde sou coordenadora pedagógica, Marcella Fusatti, cujo título era: MÚLTIPLAS LINGUAGENS E NOVAS TECNOLOGIAS: UM NOVO PARADIGMA EDUCACIONAL COM USO DE LAPTOPS EM SALA DE AULA. Nessa oficina apresentamos o Projeto UCA (Um computador por aluno) e levamos os laptops educacionais para a realização da mesma.
Mas a contextualização aqui feita tem o objetivo de apresentar a seguir as minhas anotações da palestra da professora Terezinha Azerêdo Rios, que foi simplesmente maravilhosa e acredito que conhecimento só tem valor se a gente compartilha.

 

Mineira de Belo Horizonte, Terezinha Azerêdo Rios formou-se em Filosofia na UFMG. Fez o mestrado em Filosofia da Educação na PUC-SP e o doutorado em Educação na Faculdade de Educação da USP. É professora da PUC-SP. Faz parte do Conselho Editorial de Educação da Cortez Editora, pela qual publicou Ética e Competência e Compreender e ensinar – por uma docência da melhor qualidade, e, pela Editora Moderna, Filosofia na escola – o prazer da reflexão, em parceria com Marcos Lorieri. Trabalha também como assessora e consultora em projetos de formação de professores e educação continuada de profissionais de diversas áreas do conhecimento.

A professora Terezinha iniciou sua palestra, que era sobre os desafios da profissão docente, citando Paulo Freire: “A prática de pensar a prática é a melhor maneira de pensar certo”. E indagou: será que estamos sempre refletindo sobre o nosso trabalho? Pensar, nós pensamos sempre, mas nem sempre refletimos. E para completar o raciocínio, cita em seguida, o grande escritor José Saramago: “Se podes olhar. vê. Se podes ver, repara”. Reparar implica um olhar atento. Envolvidas/os no trabalho cotidiano, muitas vezes a gente não tem condições de reparar. É necessário “olhar para o nosso trabalho”, reparar atentamente. Um olhar crítico, um olhar com abrangência, é preciso ver com clareza, é preciso “desembaçar os óculos”, ver fundo, não se contentar com a superfície, com as aparências.
Diz em seguida que a realidade é contraditória, depende do jeito que a gente vê. Uma pessoa pode ser alta. Mas depende do ponto de comparação. Dependendo, pode ser baixa. Então, uma pessoa não é alta ou baixa, ela é alta e baixa. O curto pode ser comprido. Depende. É curto e comprido. Nesse sentido, o desafio seríssimo é colocar-se no lugar do outro. É levar em consideração o olhar que esse outro tem da realidade. A pergunta tem que ser pelo sentido, pelo significado, pelo valor.
É importante em nosso trabalho perguntarmos: O que fazer? Como fazer? Mas o mais importante é perguntar: para que? Essa é pergunta fundamental. O desafio da nossa profissão é ter a humildade e a coragem de assumir uma atitude crítica. Pois uma atitude crítica requer coragem porque é uma atitude perigosa. Nos mostra as vezes aquilo que não queremos ver. Nos aponta coisas que talvez precisemos modificar. Perguntemo-nos: meu ofício me agrada? Que ofício é esse? O que faz um/uma professor/a? O que tem que fazer um/uma professor/a? A gente quer ser um/uma bom/boa professor/a? O que faz um/uma bom/boa professor/a?
Ser professor é construir a humanidade. A Educação é a socialização da cultura. É a partilha do que a humanidade constrói. Ninguém nasce humano, torna-se humano. E vamos nos tornando humanos por um processo educativo, que no âmbito da escola é sistemático e organizado, onde se constrói e reconstrói cultura para a formação de seres humanos. A questão é: que humanidade eu quero construir? E então estabeleço currículo, organizo políticas. É a construção de si e dos outros para o exercício da cidadania. É construir liberdade com responsabilidade. O desafio guarda nele um gesto de desconfiança. E o que é que se coloca em dúvida em relação ao nosso ofício? Dar conta do nosso trabalho em todas as dimensões da competência: ética, política e estética. É um ofício complexo. Mas a competência não está pronta, ela vai se construindo. Ser competente hoje é diferente de ser competente ontem. Faz-se necessário indagar: é isso mesmo que eu preciso saber? É isso mesmo que eu preciso ensinar? E é importante lembrar que ninguém é competente sozinho. As condições não estão apenas em mim. Está no entorno, está no contexto. E termina sua palestra, citando João Cabral de Melo Neto: “um galo sozinho não tece uma manhã, ele precisará sempre de outros galos...”